01Introdução
Um repertório religioso plural, não um panteão único
Os Papiros Mágicos Gregos reúnem receitas, hinos, invocações e instruções que mobilizam um vocabulário religioso muito mais amplo do que a expressão “magia grega” sugere. Em diferentes textos aparecem Hórus, Ísis, Osíris, Anúbis e Thoth ao lado de Hélio, Apolo, Hermes, Hécate e Selene; também surgem formas como Iao, Sabaoth e Adonai, além de nomes angélicos e outras referências do Mediterrâneo tardo-antigo. Essa diversidade é uma das características mais importantes do corpus.
A presença conjunta desses nomes não significa que os antigos praticantes tivessem criado uma religião universal perfeitamente organizada. Um mesmo nome pode cumprir funções diferentes em receitas distintas, e uma divindade pode ser aproximada de outra por epítetos, atributos solares, lunares, ctônicos, protetores ou revelatórios. Em alguns casos a aproximação é antiga e bem documentada; em outros, a combinação pertence especificamente ao contexto ritual do manuscrito.
Por isso, este artigo evita transformar listas de nomes em genealogias rígidas. O objetivo é observar como os PGM trabalham com identidades divinas, traduções culturais e nomes de poder, distinguindo origem histórica de uso ritual. A pergunta central não é apenas “de qual religião vem este nome?”, mas “o que este nome faz neste texto, nesta fórmula e nesta situação?”.
02Contexto histórico
Egito greco-romano: línguas, cultos e traduções religiosas
Os manuscritos reunidos sob a sigla PGM pertencem ao ambiente religioso do Egito helenístico e romano, especialmente aos primeiros séculos da Era Comum. Nesse mundo, templos egípcios, cultos gregos, administração romana, comunidades judaicas e, mais tarde, comunidades cristãs coexistiam em graus diferentes. Grego e egípcio circulavam lado a lado, e práticas de tradução cultural podiam aproximar deuses sem apagar suas histórias próprias.
A pesquisa sobre religião greco-egípcia mostra que deuses egípcios foram integrados a ambientes de língua grega e que formas de interpretatio e adaptação produziram novas configurações. Nos PGM, esse processo pode ser ainda mais móvel: títulos e epítetos são combinados para construir uma identidade divina adequada à operação ritual, de modo que o nome invocado precisa ser analisado junto do restante da receita.
03Textos e transmissão
Quais deuses e nomes aparecem nos PGM?
O corpus não apresenta uma lista oficial de divindades. Há textos centrados em figuras solares, outros em divindades lunares ou ctônicas, outros em deuses egípcios e ainda fórmulas que incorporam nomes judaicos e angélicos. Hélio é particularmente recorrente em materiais revelatórios e solares; Hórus pode ser aproximado de Hélio ou Apolo; Hermes pode assumir feições relacionadas a Thoth; Hécate e Selene aparecem em contextos lunares e noturnos; Ísis, Osíris, Anúbis e Harpócrates preservam diferentes graus de continuidade e transformação de tradições egípcias.
Nos PGM, o nome de uma divindade não é apenas uma etiqueta de origem: ele participa da arquitetura ritual do texto e pode reunir epítetos, funções e associações vindas de mais de uma tradição.
- 1. Repertórios egípcios — Hórus, Ísis, Osíris, Anúbis, Thoth e outras figuras aparecem em diferentes combinações e funções.
- 2. Repertórios gregos — Hélio, Apolo, Hermes, Hécate, Selene e outros nomes participam de hinos, invocações e fórmulas rituais.
- 3. Nomes judaicos e mediterrânicos — formas como Iao, Sabaoth e Adonai, além de nomes angélicos, circulam em textos de poder sem exigir uma única identidade religiosa do praticante.
04Conceitos e interpretações
Como identidades divinas são construídas dentro das fórmulas
Uma invocação pode combinar nome principal, epítetos, títulos cósmicos, imagens animais, qualificações solares ou lunares e sequências de nomes estrangeiros ou transliterados. Isso permite que a figura invocada adquira uma identidade funcional específica. Em vez de procurar uma equivalência fixa, o leitor deve observar quais atributos são reunidos e qual objetivo ritual organiza essa combinação.
| Forma de combinação | Como deve ser interpretada |
|---|---|
| Equivalência greco-egípcia | Deuses podem ser aproximados por funções ou atributos, como combinações solares envolvendo Apolo, Hélio e Hórus, sem que suas tradições anteriores desapareçam. |
| Acúmulo de nomes e epítetos | Uma mesma invocação pode reunir vários nomes divinos para ampliar ou especificar a autoridade ritual atribuída à potência invocada. |
| Nomes judaicos e angélicos | Iao, Sabaoth, Adonai e nomes de anjos aparecem em materiais rituais greco-egípcios; a presença textual desses nomes não basta para identificar a religião pessoal de copista, praticante ou cliente. |
A forma como nomes divinos circulam nos PGM muda conforme manuscrito, data e ambiente. Um nome egípcio pode aparecer em composição grega; um nome judaico pode ser incorporado a uma fórmula greco-egípcia; e um epíteto pode adquirir função diferente quando é copiado para outra receita. Por isso, a história desses nomes deve ser reconstruída caso a caso.1
Como os repertórios religiosos circulam e se transformam
Os PGM refletem séculos de contato cultural. O período ptolomaico intensificou ambientes bilíngues e formas de tradução entre cultos; nos séculos romanos, compilações rituais preservaram hinos, receitas e fórmulas de origens diferentes; na Antiguidade tardia, nomes judaicos e cristãos circularam ainda mais amplamente em uma cultura ritual compartilhada. Essa cronologia ajuda a evitar a impressão de que todas as combinações surgiram ao mesmo tempo.
- séculos III–I a.C.
Egito helenístico e tradução cultural
Cultos e linguagens gregas e egípcias convivem e produzem novas formas de identificação, tradução e adaptação religiosa.
- séculos II–IV d.C.
Circulação dos grandes manuais rituais
Muitos dos manuscritos centrais dos PGM pertencem ao período romano e combinam materiais de proveniências, datas e gêneros distintos.
- séculos IV–VI d.C.
Ampliação da cultura ritual tardo-antiga
Nomes judaicos, angélicos e cristãos aparecem em repertórios rituais cada vez mais compartilhados, mostrando continuidade e transformação das técnicas de nomeação.
A nota de rodapé registra uma cautela terminológica importante para o uso da palavra “sincretismo”.1
Notas
- Neste artigo, “sincretismo” é usado como termo descritivo para processos de combinação e tradução cultural. Ele não pressupõe que todos os participantes compartilhassem a mesma teologia nem que toda associação entre nomes tivesse o mesmo significado histórico. ↩
06Método de estudo
Como interpretar um nome divino dentro de uma receita
Uma leitura responsável começa pelo documento e só depois procura paralelos. O mesmo nome pode aparecer em posições diferentes — destinatário da invocação, epíteto, nome de poder, figura intermediária ou elemento de uma sequência sonora. Antes de reconstruir uma identidade religiosa, é necessário registrar a grafia, a língua, a posição na fórmula, a finalidade do rito e os paralelos textuais mais próximos.
| Etapa | Pergunta | Registro recomendado |
|---|---|---|
| 1 | Como o nome aparece no manuscrito? | Registrar grafia, transliteração, epítetos, idioma e número PGM antes de traduzir ou identificar. |
| 2 | Qual função ele exerce na receita? | Distinguir destinatário principal, nome de poder, auxiliar, comparação, epíteto ou elemento de uma sequência ritual. |
| 3 | Quais paralelos são realmente próximos? | Comparar textos do mesmo período, língua e ambiente antes de recorrer a equivalências gerais entre religiões. |
07Percurso recomendado
Como estudar deuses e tradições nos PGM
Um bom percurso começa pelo texto individual e amplia o contexto aos poucos. A sequência abaixo ajuda a distinguir identificação religiosa, função ritual e história da transmissão sem reduzir a diversidade dos PGM a uma única fórmula de “sincretismo”.
- 01
Identifique o nome exatamente
Anote grafia, transliteração, epítetos, número PGM e língua antes de propor equivalências.
- 02
Observe a função no rito
Pergunte se a figura é invocada, comparada, nomeada como autoridade, usada como nome de poder ou ligada a uma ação específica.
- 03
Compare tradições próximas
Busque paralelos egípcios, gregos, judaicos ou outros somente quando cronologia, linguagem e função permitirem uma comparação responsável.
- 04
Registre o grau de certeza
Separe identificação segura, hipótese provável, associação possível e interpretação sem consenso; essa distinção evita transformar conjectura em fato.
Síntese final
O essencial para entender os deuses e nomes dos PGM
- Os PGM preservam repertórios religiosos egípcios, gregos, judaicos e mediterrânicos em combinações variáveis.
- A presença conjunta de vários nomes não comprova um panteão único nem uma religião universal organizada.
- Equivalências como Hélio–Hórus ou Hermes–Thoth devem ser lidas no contexto específico de cada texto e de sua história cultural.
- Nomes como Iao, Sabaoth e Adonai circulam em materiais rituais greco-egípcios e não identificam automaticamente a religião pessoal do praticante.
- A unidade básica de análise deve ser o manuscrito e a receita: grafia, língua, função ritual, datação e paralelos próximos vêm antes das grandes sínteses.
08Encerramento editorial
Conclusão
A pluralidade divina dos Papiros Mágicos Gregos é uma janela privilegiada para o ambiente religioso do Egito greco-romano. Hórus, Ísis, Osíris, Thoth, Hélio, Apolo, Hermes, Hécate, Iao, Sabaoth e muitos outros nomes aparecem porque os textos circularam em sociedades nas quais línguas, cultos e técnicas rituais estavam em contato. Cada combinação, porém, possui sua própria lógica documental.
Estudar esses nomes historicamente exige resistir a duas simplificações opostas: separá-los em compartimentos culturais totalmente isolados ou fundi-los em uma única religião esotérica. Entre esses extremos está o trabalho com as fontes: identificar o manuscrito, observar o papel de cada nome, comparar paralelos adequados e reconhecer quando a evidência permite falar em tradução, equivalência, apropriação, continuidade ou recombinação.
09Documentação
Referências
- BETZ, Hans Dieter (ed.). The Greek Magical Papyri in Translation, Including the Demotic Spells . 2. ed. Chicago: University of Chicago Press, 1992.
- BORTOLANI, Ljuba Merlina. Magical Hymns from Roman Egypt: A Study of Greek and Egyptian Traditions of Divinity . Cambridge: Cambridge University Press, 2016.
- DIELEMAN, Jacco. Priests, Tongues, and Rites: The London-Leiden Magical Manuscripts and Translation in Egyptian Ritual (100–300 CE) . Leiden/Boston: Brill, 2005.
Bibliografia
- BOHAK, Gideon. The Diffusion of the Greco-Egyptian Magical Tradition in Late Antiquity . In: RUTHERFORD, Ian (ed.). Greco-Egyptian Interactions. Oxford: Oxford University Press, 2016, p. 357–382.
- MARTINEZ, David G. Papyrology . In: EIDINOW, Esther; KINDT, Julia (eds.). The Oxford Handbook of Ancient Greek Religion. Oxford: Oxford University Press, 2015/2016.
- BOUSTAN, Ra‘anan; SANZO, Joseph E. Christian Magicians, Jewish Magical Idioms, and the Shared Magical Culture of Late Antiquity . Harvard Theological Review, v. 110, n. 2, 2017, p. 217–240.
Leitura complementar
- Para começar pelas fontes: Betz reúne traduções dos Greek Magical Papyri e dos Demotic Spells relacionados, com introduções, notas e referências aos manuscritos.
- Para divindades e hinos: Bortolani analisa como elementos gregos e egípcios se combinam na construção das figuras divinas dos hinos mágicos.
- Para tradução cultural: Dieleman e Bohak ajudam a compreender transmissão, autoridade, multilinguismo e difusão da tradição ritual greco-egípcia.
Links externos
10Dúvidas comuns
Perguntas frequentes
Os PGM possuem um panteão próprio?
Não. A coleção reúne textos de origens e épocas diferentes. As mesmas divindades podem aparecer com funções distintas, e diferentes receitas combinam repertórios religiosos de maneiras próprias. Falar em “panteão dos PGM” pode ser útil como atalho, mas não deve sugerir uma teologia única e estável.
Hélio e Hórus são a mesma divindade nos PGM?
Alguns textos aproximam Hélio e Hórus, às vezes também Apolo, sobretudo por atributos solares. Essa associação é historicamente importante, mas não autoriza afirmar que Hélio e Hórus eram sempre considerados idênticos em todos os cultos, manuscritos ou períodos.
Por que nomes como Iao, Sabaoth e Adonai aparecem nos papiros?
Nomes de origem judaica circularam amplamente em práticas rituais da Antiguidade tardia e foram incorporados a fórmulas greco-egípcias como nomes de autoridade ou poder. A presença desses nomes em uma receita não basta, por si só, para identificar o copista ou praticante como judeu.
A mistura de nomes prova que existia uma religião sincrética universal?
Não. Os textos mostram contato, tradução, recombinação e circulação de repertórios, mas essas operações variam de caso para caso. O termo “sincretismo” precisa ser usado como descrição de processos específicos, não como explicação automática para toda combinação religiosa.